BOA NOITE CRIANÇAS

J.P.R Neves

Em uma noite fria, em meio a floresta, e em volta de uma fogueira, um velho senhor acompanhado de cinco crianças permaneciam acampados no local.

– Tem certeza de que querem ouvir essa história antes dormir? – Dizia o velho enquanto comia uma pata de coelho assada.

Os pequenos em volta apenas balançam a cabeça concordando, interessados no que o senhor contaria para eles naquela noite.

– Muito bem… esta história começa a partir de Stan Arfrid, um homem forte e corajoso que tudo encarava, essa característica acabou o atraindo até uma aventura pelo alto-mar em busca de novas terras para seu reino. Acompanhado de mais cinco aventureiros, Stan seguia a rota em seu navio com esperanças de uma descoberta, porém… – O velho dá uma tosse antes de continuar.

– Você está bem? – Perguntava uma menininha totalmente encolhida devido a história.

– Oh, sim! Continuando…, porém, o que o jovem aventureiro iria encontrar não seria novas terras, e sim algo que o faria temer pela primeira vez em sua vida. Em uma breve noite fria e de tempestade, o jovem Stan acorda no meio da noite incomodado com os trovões, ele caminha até o convés para observar o agitar do mar, e era assustador…, mas isso não intimidava o rapaz, porém, neste exato momento, ao olhar para a proa do navio, ele avistava um monstro! Parecia humano, mas totalmente contorcido e com uma pele bastante escurecida, seus olhos eram mais negros que a noite, e encarava o jovem Stan que permanecia paralisado. – O senhor tosse mais uma vez e dá um gole em seu cantil de água.

– Eu acho melhor dormimos, não foi uma boa ideia contar essa história… – Diz um garoto amedrontado.

– Silêncio! Deixe-o continuar! – Diz o mais velho interessado.

– Continuando… Após tal avistamento, uma onda bem violenta acaba por acerta o navio, o ser esquisito que estava na proa havia desaparecido.

– Teria sido coisa da cabeça dele? – Pergunta o mais velho interrompendo.

– Talvez… basta encarar a escuridão por um tempo e ela acabara afetando sua mente. Mas Stan estava convicto do que tinha visto, após esse fato ele volta para os aposentos do navio, porém, sem dormir aquela noite, o que tinha visto mexeu muito com ele. Na manhã seguinte o rapaz vai até o capitão e relata o que avistou, o capitão fica em silêncio por algum momento e logo dá uma gargalhada como forma de achar tamanha graça da história de Stan.

– Ela voltaria a aparecer? A coisa? – Pergunta a garota do meio.

– Para o alívio de Stan… não. – Responde o velho.

– Então… foi somente isso? – Pergunta novamente a garota.

– Claro que não, não seria uma história assustadora. O que se deu a seguir foi revelações para o jovem, naquele mesmo dia, conversando com os restantes dos companheiros, Stan descobria que aquelas mesmas pessoas teria avistado aquele ser estranho, antes mesmo de embarcarem no navio, em diferentes ocasiões. O navegador havia visto uma pessoa de olhos negros em seus sonhos, o ruivo que cuidava das velas teria presenciado uma grande massa negra em volta do convés noite anterior ao relato de Stan, o cozinheiro teria encontrado com uma bela mulher na ultima cidade em que esteve, porém esta possuía olhos negros e marcas em suas costas, e enquanto os outros dois… bem, eles não preferiram tocar no assunto.

– Ah não, então era real, o monstro era real! – Exclamava um garoto assustado.

– Sim, ao que tudo parece levar, aquela coisa era real… o que passou a amedrontar mais ainda o corajoso Stan. Curioso a respeito do capitão, o jovem vai até o local em que permanecia sozinho, mas ele não estava lá, causando estranheza ao rapaz. Em cima de sua mesa de madeira podre havia alguns pergaminhos, curioso, o jovem se atreve a abri-los, mas não havia nada que o interessava, apenas alguns símbolos estranhos e textos nada conexos. Ao mesmo tempo em que observava tudo aquilo, o capitão acabava por surgir atrás de Stan, tossindo e o assustando, questionado por estar bisbilhotando em coisa alheia, o rapaz apenas diz que estava procurando algo para se distrair, o capitão novamente o questiona, fazendo com que Stan contasse mais uma vez o seu caso, e também o dos seus companheiros.

– E o que ele respondeu?! – Pergunta o garoto mais velho curioso.

– As palavras do capitão soaram claras e tenebrosas, ‘’É obra do vazio’’, disse ele.

– Vazio… o que seria isso? – Pergunta a garotinha encolhida.

– Pouco se sabe sobre o vazio, mas dizem que é uma força sobrenatural que atua sobre toda natureza e toda coisa viva do planeta em prol da maldade. – Diz o velho.

– E por que ela estaria aparecendo para eles? – Pergunta novamente

– Ela aparece para todos nós…nos conta mentiras e nos seduz com sua força. – Responde o velho.

– O que aconteceu com os aventureiros? – Pergunta a garota do meio.

– Na noite posterior, o mar estava diferente, estava calmo e parado. O céu estava limpo e diferente da noite anterior, o jovem Stan estranha a ausência dos seus companheiros no dormitório do navio, com um ar tenso, ele caminha novamente até a convés do navio, o que seus olhos enxergavam era de todos os aventureiros amarrados com suas gargantas cortadas, ‘’ O que diabos está acontecendo?’’, se pergunta o jovem Stan, o único que não estava amarrado era o capitão, que surgia da escura proa do barco. Bastante assustado e temente a sua vida, o jovem Stan só recebeu uma resposta do capitão.

– O que ele diria nessa altura da história? – Pergunta o garoto mais velho.

– “Se eu te contasse que os relatos fossem reais, você teria coragem de enfrentar tamanha escuridão certo? Sabe o que mais amedronta aventureiros Stan… o desconhecido.’’, os olhos do capitão ficam escuros semelhante a criatura vista pelo jovem, a boca do capitão estava suja do sangue, o que ele teria feito, bebido o sangue dos aventureiros?

– Bleerg, que nojo, não gostei dessa história, estou com medo. – Diz a garota mais nova.

– Já está acabando minha pequena, então, agora vem a parte boa, apesar de o jovem Stan ainda está com medo, seu corpo acaba por se mexer por vontade própria, como uma maneira de sobrevivência, entre golpes e empurrões, ele conseguiu jogar o capitão no mar, se livrando até então, daquele ser que ele nunca mais esperasse encontrar em sua vida… Bem, ficaram com muito medo?

– Sim… – Responde a garotinha.

– É esquisito, olhos negros…, mas é somente uma história… então não estou. – Diz a garota do meio.

– É… é uma boa história. – Diz o garoto mais velho.

As outras crianças nem quiseram opinar, de tão assustados que estavam, o velho se levanta do tronco de madeira e limpa as cinzas que havia acumulado em sua roupa enquanto contava a história.

– Bem, é hora de todos vocês dormirem. – Diz o velho.

Após todos se deitarem, o senhor apaga o fogo, o garoto mais velho se vira para o questionar do por que está fazendo isso, mas se arrependeria de ter feito isso. A verdade é que o velho senhor omitiu alguns detalhes da história, o pergaminho estava escrito na sala do capitão era de que para garantir maior expectativa de vida era necessário de sangue de temerosos e a parte boa da história, não era sobre Stan ter se livrado do capitão empurrando ele do barco, era a do capitão ter caído no mar e ter sido levado pelas ondas até uma nova terra, a qual podia fazer o serviço da escuridão, anos de maldades cometidas se passaram e esse capitão encontrava sempre novas vítimas para beber de seu sangue, pois quando tinha falta do mesmo, ficava bastante debilitado. Suas vítimas preferidas era crianças órfãs de guerras, por isso, ao se virar, o garoto mais velho observava uma figura maligna, que tinha uma expressão sombria e um olhar negro que o encarava fixamente.

– Boa noite crianças…

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