Olhe para mim agora

ALERTA DE GATILHO: O CONTO A SEGUIR FALA SOBRE ESTUPRO E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER.

Gutenberg Löwe 

O homem entrou no ônibus com a cabeça erguida, jogou o dinheiro da passagem sobre a tampa do caixa e atravessou a roleta como se estivesse indo para o abate. Só que neste caso, ele era o açougueiro responsável pela pancada certeira no meio da testa da rês. Os ombros largos, mantendo seu porte ereto eram prova da confiança que sentia em si. Os olhos, tão escuros que pareciam ser apenas uma esfera de noite em seu rosto, miravam o fundo da condução.

Caminhou pelo corredor, parecendo tomar cuidado para que seu paletó não encostasse em nada. Já era tarde da noite e a maioria dos bancos estava vazia, mas mesmo assim seguiu até a última fileira de bancos, logo depois da segunda saída, onde sentava-se uma moça.

Ele parou por um instante, contemplando a vista. Então, quando o veículo arrancou, dirigiu sua atenção às coisas mais práticas: deveria se sentar ali ou não? O cobrador o encarou de seu assento. Parecia curioso, do tipo que faria perguntas depois. Precisava aproveitar agora ou ficaria muito visado. 

Sentou-se ao lado dela enquanto ela permaneceu encostada junto à janela. Parecia distraída, provavelmente ouvindo algo nos fones e pensando no que faria no dia seguinte. Para ele, parecia que era uma universitária, ao menos vestia-se como uma: casaco da UFJF —  impossível de ver o curso —; calça jeans justa, mas rasgada em alguns pontos; e All-Stars de cano alto, pretos como a maquiagem no rosto dela. Tinha uma mochila sobre as pernas, mantida bem firme entre as mãos.

Ele começou puxando pela alça. Não foi nada forte, o que faria com que gritasse. Mesmo que um cartaz da prefeitura sobre a campanha de vacinação escondesse-os do restante do coletivo, um grito chamaria a atenção. Assim, usou apenas o necessário para ganhar a atenção dela.

— Boa noite — disse em sua voz grave, meio aveludada. Tinha a mão esquerda erguida diante dele. — Tudo bem? Só queria conversar contigo?

O assombro no rosto desapareceu dando lugar a raiva.

— Cara, tenho namorada. — A resposta veio seca, junto de uma tentativa da moça de se levantar. Quando ele não se mexeu, ela insistiu: — Então, você pode dar licença?

Tsc. Tsc. Tsc.

— É melhor você ficar aí — disse, empurrando-a de volta para o assento com a mão esquerda —, e não tentar nenhuma gracinha ou pode se machucar.

Para mostrar que falava sério, tinha na mão direita uma faca curta. Estava apontada para as costelas da moça. Sob a luz amarelada pela poeira, sua lâmina reluzia com a promessa de uma desgraça.

— Agora vamos ser amigos, certo?

Ela assentiu. Sua atenção ia da faca para o homem e depois o restante do ônibus, esquecido por estarem atrás daquele cartaz providencial.

— Não preciso saber do seu nome e nem você do meu — continuou ele, abaixando um pouco a arma, mas não a deixando numa posição desfavorável. — Vamos considerar esse encontro uma aventura de apenas uma noite, tá?

Ela concordou. Seus olhos pareciam dois faróis, tão dilatadas estavam as pupilas, como se assim pudesse clarear o próprio caminho; faziam oposição às orbes devoradoras do homem com sua escuridão antinatural.

— Ótimo. Vamos começar, então.

Ele pediu para que a estudante abrisse os botões da calça dele, sussurrando para que ela não amassasse nem o tecido desta ou do paletó. Depois pediu para que puxasse o membro já ereto e o masturbasse. Ela obedeceu enquanto as lágrimas desciam por seu rosto. Sempre que ameaçava um choro mais alto ou o movimento das mãos atrapalhava, ele ameaçava com a faca.

— Abaixe a cabeça — pediu entredentes, o corpo estremecia pela proximidade do gozo. — Fique bem perto dele, mas olhe para mim.

O rosto já marcado pela repulsa da jovem se fechou ainda mais. Fosse o nojo algo possível de se excretar através da pele, a mulher estaria coberta por pústulas ou outra forma horrível em que tal sentimento se manifestaria.

— Se você não fizer por bem — a declaração veio acompanhada de um movimento com a faca. Ainda que curta, a lâmina era maior do que a outra coisa. Ambas com um potencial de destruição inimaginável. Completou, então, perfurando um pouco da pele da moça — Fará por mal.

Ela obedeceu, aquele par de olhos assustados e castanhos encarando-o enquanto os movimentos continuavam. O medo o deixava mais duro, saciando uma necessidade primal que não sabia dar nome. Mas em breve não importaria muito. Apenas seu prazer tinha qualquer valor.

— Obrigado — disse depois de ficar satisfeito. — Vamos descer na próxima parada. Depois cada um segue sua vida. Nada de ficarmos íntimos, sabe?

Os dois saltaram juntos em algum ponto da Cidade Alta. Ele colocou a mão direita sobre o ombro dela, abraçando-a e fazendo-a lembrar-se da faca. Caminharam por um bom tempo atravessando a avenida já deserta, exceto por um ou outro transeunte e cachorro perdidos. Pararam apenas quando ele encontrou um beco escuro, a forçando a entrar nele.

— Agora, se você quiser ficar viva, fique calada — disse enquanto passava a faca no rosto da moça. — Se eu for incomodado por isso, você morre. Se eu ouvir ou ler qualquer coisa sobre isso, você morre. Entendeu?

Ela balançou a cabeça, confirmando. O movimento parecia mecânico, como uma resposta dos algoritmos naturais que forçavam seu corpo maculado a se manter vivo, não importando o custo. Ele sabia disso e sempre apostava que na escolha entre submissão e destruição, elas acabavam escolhendo a primeira.

— Vai embora, já me cansei de você. — Já tinha consumado o ato e aproveitado aquele terror secundário, quase como se uma sobremesa perversa. — Só não se esqueça do que prometeu.

Ele observou a estudante sair correndo. Caminhou mais um pouco, voltando à via principal e pediu um Uber. Podia terminar o dia feliz de ter conseguido aproveitar bem aquela oportunidade. Ficaria agora quieto por algumas semanas, esperando a poeira baixar, cabelo e barbas crescerem. Então atacaria de novo para extravasar todo o tesão acumulado.

***

Demorou mais de um mês para que uma nova oportunidade surgisse. Dessa vez, ele vestia-se de maneira casual — tênis brancos da Adidas, camisa polo azul marinho e uma calça jeans que deveria valer mais do que o salário do pobre diabo vigiando a roleta. Passou por ela procurando a vítima da noite, mas o ônibus estava vazio. Sentou-se lá atrás, local sempre escondido por algum anúncio ou aviso não importava a linha ou a época do ano.

Ficará pra amanhã?, pensou, ajeitando o volume da calça. O mero pensamento já fazia brotar uma ereção. Não gostava muito de desperdiçá-las. Se não aparecesse ninguém, acabaria se aliviando sozinho. Primeira vez que deixava um presente para os faxineiros daquela viação.

— Posso me sentar aqui? — perguntou uma mulher de pele escura, corpo sinuoso e voz rouca de fumante.

— Claro.

— Está meio animadinho, hein?

Ele reagiu seguindo o padrão dos algoritmos sociais que faziam-no funcionar durante o dia apesar das perversões que marcavam cada instante de sua mente doentia. Cobriu a ereção com as mãos, o rosto enrubesceu e um pedido de desculpas saiu entrecortado pelos dentes amarelados de café.

— Não precisa esconder — rebateu a mulher. Completou piscando. — Eu gosto, sabe?

— Todas gostam, não é? — emendou ele, sorrindo e revelando a barraca armada.

— Algumas só não sabem disso ainda — completou a mulher, passando a boca pelos lábios. Úmidos, brilhavam e evocavam a imagem de outros. — Tire ele, encoste no banco e relaxe. Hoje será uma noite que você não esquecerá.

Ele obedeceu, mais duro ainda pela avidez com que ela se oferecia. Nunca teve qualquer uma que fosse generosa assim. Talvez fosse o sangue negro que a deixava promíscua. Não importava. Queria apenas gozar e curtir aquela noite.

Um calafrio correu por seu corpo quando os dedos gelados da mulher envolveram seu pênis. Uma vez, a luz acabou durante o banho e um jato de água fria caiu sobre seu corpo. Naquele dia, achou que fosse gripar por conta da experiência. Agora, parecia que seu pau iria congelar e cair.

Ele abriu os olhos para ver o que estava acontecendo, mas a mão firme dela segurou seu pescoço contra o banco. A pele do rosto parecia queimar com o toque gélido, drenando todo o calor do corpo.

— Vamos ser amigos, certo? — perguntou a mulher, usando um tom parecido com o que ele próprio falava com as mulheres. — Você só precisa assentir para eu saber que concordou.

Como incentivo, ela apertou mais o membro que parecia preso em um torno tamanha a força. O frio da mão o brochou, mas a mulher ainda assim segurava todo o membro, como se quisesse arrancá-lo com um puxão.

— Você será bonzinho?

Ele balançou a cabeça. Como os algoritmos naturais eram sempre uns canalhas diante dessas escolhas.

— Gosta quando está do outro lado, né?

Outro assentir, agora mais leve. Ela tirou a mão que segurava o rosto dele, enfiando-a na bolsa. O alívio durou apenas uns instantes até ver o que ela trazia consigo.

— Trouxe minha própria faca para essa noite — declarou ela, erguendo uma lâmina fina cheia de desenhos intricados. Pelo desespero que crescia no homem, não era possível perceber os detalhes, mas parecia coisa de magia negra.

Ela baixou a arma até encontrar-se com a pele na base do membro. O homem tentou se mover, gritar ou lutar, porém nada deu certo. Seu corpo parecia congelado pelo frio transmitido pela mulher.

— Sabe, já fui de carne e osso — começou ela, avançando devagar a lâmina contra o membro —, então ainda sei o que é a dor. Por sorte, sei um encanto que bloqueia suas tentativas de lutar contra ela, permitindo que aprecie a mesma coisa que suas vítimas sentem.

Um fiapo de sangue escorreu dali, a pele ardendo como se a lâmina estivesse em brasa. A mulher riu diante do desespero refletido nos olhos dele. Depois passou a faca sobre a glande, abrindo-a e a uretra ao meio. Mais dor. Uma que não passava e que teria levado qualquer outro à loucura, mas ele experimentava-a sem qualquer alteração de consciência. Não importava o que a mulher fizera com ele, era incapaz de reagir àquilo, apenas sentir com uma intensidade atroz.

— Aproveite o momento e feche os olhos — mais um corte, agora no escroto —, afinal você gosta dessas relações de apenas uma noite, certo? Conosco não será diferente.

Antes de obedecê-la, olhou para baixo. Um rio vermelho escapava por entre suas pernas. Sempre compartilhara uma piada sobre a mulher ser um bicho terrível por sangrar todo mês, mas nunca morrer. Pela fraqueza que se espalhava pelo corpo com a mesma velocidade que as mentiras, ele sabia que sua sorte seria diferente.

— Se você fosse qualquer outro tipo de verme, acabaria rápido com isso. Mas você merece que eu tire o tempo que for preciso. Afinal, você gosta que as coisas sigam no seu ritmo.

Ela murmurou outra coisa com aquelas palavras incompreensíveis. A inconsciência que se mostrava como alento para a dor onipresente o abandonou. Nunca antes esteve tão sóbrio na vida, consciente de cada átomo em seu corpo e de como o sofrimento espalhava-se neles, em suas subdivisões até mesmo nos abismos quânticos.

— Que as chamas do Inferno queimem nós dois — disse ela, como se fosse o fim de uma oração. Desde o começo de sua retaliação, foi a primeira vez que sua voz ficou baixa, adquirindo um tom melancólico.

Alguma coisa na faca que a mulher segurava caminhar rumo ao interior do homem, como se fosse uma sonda espiritual. No rastro daquela invasão vinha um medo ancestral, a sensação de se transformar invariavelmente naquilo que mais detestava.

— Olhe para mim agora — ordenou a mulher. Compulsoriamente, obedeceu, amedrontado pelo sorriso insano no rosto dela que então cortou o restante do membro.

O grito silenciado ecoou na cabeça dele, reverberado por aquela prisão em que seu corpo fora transformado. Aquela sensação ficou gravada na eternidade, condenando-o a experimentá-la uma vez após a outra.

***

Quando o cobrador foi fazer a ronda final do ônibus encontrou o corpo mutilado do homem. Estava banhado em seu próprio sangue e com o pênis enfiado na boca. Sobre sua cabeça, escrito com o mesmo vermelho que cobria o cadáver: PORCO ESTUPRADOR.


Este conto é uma continuação de “Tanto Se Perdeu”, que você pode ler clicando aqui.

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