Caminhos

Fernando Paiva

Quando  passei pelas Portas de Pedra pensei que seria tranquilo, “sempre pela direita”, contudo a regra básica para qualquer labirinto mostrou-se inútil nesse lugar infinito. Ao fim do dia eu me vi cansado e como era de se esperar, desorientado. Adormeci em um desses intermináveis corredores e despertei sufocando como se uma montanha estivesse em cima do meu peito.

Juntei a pouca força que me restava e busquei uma das cabaças que trouxera na mochila, tirei a rolha e bebi um gole do seu conteúdo torcendo para não ser água e sim aquela com poção de cura. Senti o líquido refrescante abrir caminho e seguir aquecendo, quase queimando o meu interior. Estava salvo.

Alguns instantes depois, eu já estava restabelecido e curioso para saber o que foi aquilo; “que criatura havia me envenenado?” pensei, mas não havia outros seres a vagar naqueles corredores de pedra lugar. Além das plantas.

Eu estava tão entusiasmado e maravilhado com aquele lugar que não reparei em algo simples: não havia monstros ou qualquer criatura a vagar por essas paredes, nenhum ser vivo a não ser plantas que cresciam à vontade fazendo da rocha cinzenta o seu lar e soltando esporos, que tornam o ar cada vez mais sufocante.

Sem perder mais tempo pego na mochila, um lenço — uma lembrancinha dos meus tempos de ladino em SantMichel —, derramo um pouco de poção nele e cubro a boca e o nariz. Sigo ainda sem saber o caminho, porém protegido.

***

Depois de horas de caminhada, o calor e o suor, principalmente no meu rosto mascarado, incomodavam bastante, mas não a ponto de me fazer andar sem proteção. Eu vi o sol começar o seu trajeto ao poente e decidi recostar à sombra de uma parede sem “Erva do Labirinto” para comer minha dose diária de pão élfico.

Antes de guardar o pão élfico, reparo numa ave pousada no alto de uma das paredes; ela segue próxima demais de um ramo da Erva sem demonstrar repulsa à planta venenosa, até que ela salta e pousa no solo para comer dos farelos, mas cai sem ter forças para voar novamente. Rapidamente, junto o pássaro do chão e ergo o mais alto e mais distante das paredes que posso.

Longe do excesso de veneno o pássaro alça voo e, observando a cena, uma ideia começa a tomar forma; algo simples e completamente insano, mas que poderia ser minha salvação. Ou o meu suicídio: escalar a parede para respirar novamente e, de quebra, ver o Labirinto por cima.

***

“Só mais um pouco e eu poderei respirar tranquilo, só mais um pouco…” era o que repetia a mim mesmo durante a subida agarrado a cada reentrância da rocha como se minha vida dependesse disso, pois era verdade.

Quando alcanço o alto do bloco de pedra, retiro a mochila e o cajado das costas, abaixo o lenço do rosto e aspiro o ar que, longe de ser limpo, não era venenoso como aquele lá embaixo. Viro a cabeça de um lado a outro em busca do meu objetivo até que encontro as paredes circulares que indicam o centro deste Labirinto.

O sol poente me mostra que não dá tempo de descer e tentar novamente, aquele lugar já era confuso demais à luz do dia. Por isso sento ao lado da mochila e verifico meus suprimentos: duas cabaças de água, um pão e meio, bandagens e unguentos, papel e uma cabaça e meia de poção de cura. Tudo em ordem, desde que eu cumpra a minha missão o mais breve possível.

***

A lua crescente brilha forte agora que o sol se pôs. Seu formato me recorda de que foi numa noite como essa que eu comecei essa jornada. Após um ano inteiro que passei vagando pelos reinos de Ardhan e SantMichel, decidi voltar à cabana do meu Mestre. Chegando lá, porém encontrei-a vazia, sem poções, livros ou mantimentos, apenas uma mochila em cima da mesa com uma carta breve presa a ela.

“Meu jovem, Odnan

Fico feliz que esteja lendo estas palavras, eu sabia que mais cedo ou mais tarde seus pés o trariam de volta pra casa, meu filho.

Seis meses depois que você partiu, eu recebi uma carta, um chamado: um velho amigo, guardião de um tesouro incrível, recebeu uma visão e soube que era chegada a hora de ter um assistente, alguém a quem passar seus conhecimentos e substituí-lo quando a sua hora chegasse. Como sempre trocamos cartas e nelas eu sempre falava dos avanços de meu aprendiz, ele me perguntou se você aceitaria a missão que outrora foi dada a ele.

Desde aquele dia, há duas décadas, quando eu te encontrei na floresta, perdido e faminto, mas decidido a lutar pela vida, eu soube que você estava destinado a algo maior do que seguir os meus passos e se tornar um bruxo na floresta, um mero curandeiro.

Pesa-me o coração apenas não poder te dar essa notícia pessoalmente, filho, pois a minha hora não tarda a chegar e devo partir, acender a minha pira no alto da montanha como manda a tradição dos meus ancestrais.

Deixo a ti o meu mais caro adeus e esta mochila com tudo o que vais precisar na sua jornada incluindo um mapa com o caminho a seguir. Além disso, há mais uma coisa: meu cajado; assim que eu acender a minha pira e partir, ele será seu, basta que você siga o caminho da montanha e retirá-lo das cinzas que o vento não soprar.

Independente da sua escolha, meu caro Odnan, seu velho pai e mestre te acompanhará no alto das estrelas.

“Do seu pai, Estus.”

***

O sol nascente me desperta e começo meus preparativos, como um pedaço de pão élfico, bebo um gole de água e dou uma boa olhada no mar cinza e verde à procura de uma rota para o centro.

Com o caminho traçado, eu espalho um pouco de poção de cura no lenço e amarro-o no rosto, minha única proteção contra o ar venenoso deste lugar. Mochila na costa e cajado preso. É hora de descer.

Caminho pela borda do bloco à procura de outro ponto de descida sem muita erva, quando percebo que a largura dos caminhos é um pouco maior, na verdade que a largura do próprio bloco. “Desse modo… é possível saltar!” Grito ao vento e quase perco o equilíbrio. “Só preciso ter cuidado”, penso.

Retiro o lenço do rosto e calculo bem a distância e a direção, além dos locais de salto e pouso. Dou alguns passos para trás com o coração acelerado pelo nervosismo. Corro e salto ao chegar à beira.

Evito olhar para baixo, pois o medo atrapalha a concentração necessária para o ato; não consigo acreditar quando chego ao outro lado, mas continuo correndo. O êxito alimenta a coragem, a confiança e a determinação. Salto mais uma vez. Cada um era um voo baixo com o vento batendo no rosto nu e o tempo parando por um instante até meus pés alcançarem o solo novamente, quando eu aperto o passo, corrijo a direção e torno a saltar. Finalmente descobri um caminho ao centro e à Biblioteca.

Sigo correndo e saltando até eu cometer o primeiro erro, que bem poderia ter sido o último, pois mesmo não admitindo, estava cansado demais para manter o ritmo. Quando paro para descansar percebo o quão dolorosas estão as minhas pernas.

O cansaço trouxe consigo um ponto positivo: eu já havia adiantado a minha jornada pela metade e, como o sol estava bem alto no céu, chegaria ao centro junto com o poente. A desvantagem, porém, era que eu comi um pão inteiro e sequei meia cabaça de água, ou seja, meus suprimentos estavam acabando e, de certo modo, a jornada também.

***

Depois de horas de corridas e saltos, finalmente chego ao último bloco. “Que tipo de local mágico estaria naquela clareira?” Um castelo era a resposta óbvia, mas estava fora de questão, já que qualquer torre de ameias estaria acima daquelas paredes. 

Chego à beira da parede e vejo a clareira cinco metros abaixo. Um círculo perfeito com um raio de cinquenta metros de chão gramado com umas poucas árvores no lado oposto de onde eu estava. Não havia fonte de água ou plantação de nenhum tipo. Apenas uma construção exatamente no centro da clareira.

Desde que desci da montanha com o cajado deixado pelo meu pai, seguindo pela Estrada do Leste, contornando a Serra dos Dentes até as Portas de Pedra do Labirinto, passei as noites e horas de descanso pensando como seria a Biblioteca do Tempo. Imaginei lugares gigantescos e suntuosos ou algum tipo de local mágico, um portal talvez ou ainda uma masmorra subterrânea cheia de salas e segredos. Nada, porém, era parecido com o que via.

Uma Capela. 

A pequena construção de pedra com telhado, janelas e porta de madeira era pouca coisa maior do que a minha cabana na Floresta de Ardhan. A suposição da Masmorra subterrânea estava certa afinal.

Aproveito as últimas luzes do crepúsculo para guiar a minha descida até o solo gramado. Caminho até a construção, mas por precaução dou a volta nela antes de buscar a entrada. As janelas estão fechadas e não há barulho ou qualquer sinal de vida lá dentro. Sigo para a grande porta da frente. Fechada, sem maçaneta ou aldrava. Conforme a luz do dia vai morrendo, as letras aparecem. Desenhadas e brilhantes formando os versos:

Cada era por mim começa,

Por mim cada idade termina.

Início e fim da eternidade,

Não sou nenhuma divindade,

Pois existo em cada esquina.

Apareço uma vez no mês,

Mas em nenhuma hora ou minuto me vês.

Então anda, responde de uma vez

E acaba com essa rima!

“E essa agora..?” Lia e relia aqueles versos sem encontrar a resposta. Tentei outros meios de entrar, mas as janelas e o telhado estavam selados com magia. Tentei alguns encantos e falhei em todos.

Então eu resolvi seguir um conselho do velho Estus: ““Quando não conseguir resolver um problema, jovem, dê um tempo. Descanse e depois volte. Com o estômago cheio, de preferência.”

Desse modo, eu sentei encostado à porta com a mochila entre as pernas e o cajado de Estus ao lado.

Ele saberia a resposta. “Estus, o Estudioso”, era como eu lhe chamava. Ele poderia estar em um castelo trabalhando para um nobre, em uma loja vendendo poções ou sendo curador de alguma Biblioteca antiga, mas ele preferia trabalhar de graça e ser “Estus, o Eremita”…

Fiquei em pé novamente e li aqueles versos pela enésima vez e, pela primeira, eu sabia a resposta.

— A Letra ‘E’! — Falei a plenos pulmões e as portas abriram sem rangido ou som algum, como se elas não tivessem peso.

***

Como imaginei, o interior era um único cômodo, salão que compreendia todo o ambiente. Vazio a não ser por colunas que sustentavam o teto e as tochas acesas que mantinham o local iluminado. No lugar onde deveria estar a parede do fundo havia um portal largo fechado.

“Mais um teste… quantos mais serão necessários?”

Caminho devagar até a porta e conforme me aproximo ouço um som grave, um ronco. Havia algum animal grande atrás daquelas portas. Chego à porta, seguro o cajado de Estus com uma das mãos e toco na porta que se abre sozinha, novamente sem rangidos ou foram suprimidos pelo ronco da criatura que dormia a minha frente.

 Era um enorme Dragão marrom com escamas da cor do couro curtido. Suas patas dianteiras com garras grandes como espadas serviam de apoio a uma cabeça reptiliana com espinhos e dentes à mostra e focinho longo com filetes de fumaça saindo de suas narinas.

A fera não dormia em uma caverna rochosa, mas em um suntuoso salão, tão grande quanto um palácio vazio, colunas adornadas com um tipo de iluminação própria sustentavam um teto tão alto que a criatura adormecida poderia fazer piruetas no ar sem lhe causar transtornos.

Haviam livros, é claro, estantes gigantescas formavam paredes que faziam aquelas do Labirinto lá fora parecerem um desenho de criança. Sem falar dos livros espalhados em montes que serviam de cama para o dragão adormecido.

Percebo tudo isso sem sair do lugar temendo despertar a fera e buscando um meio de atacá-la, mesmo sem nunca ter lutado contra um dragão, tampouco tinha em mãos armas para tal feito, contudo já tive conhecimento sobre seus hábitos.

No entanto, havia algo naquele ser adormecido que me parecia errado, ou melhor, diferente. Não havia nada típico de um covil de Dragão, não havia restos de animais nem nada queimado ou mesmo chamuscado.

Meu pai dizia que as minhas ideias malucas eram as melhores e o Labirinto havia posto essa verdade à prova. Naquele momento, vendo aquele colosso adormecido e com a herança do meu mestre nas mãos falei:

— Lorde Salocin, Mago-Curador da Biblioteca do Tempo. Eu sou Odnan, filho de Estus, o Eremita e da Floresta de Ardhan. Peço humildemente que me aceite como seu aprendiz

O Dragão abriu um olho castanho com a pupila fendida, olhou furioso em minha direção e deu uma piscadela. A figura escamosa em cima dos livros se desfez em fumaça e em seu lugar estava um homem com uns 60 anos vestido com um manto marrom com detalhes verdes. O mago me olhou de cima a baixo, avaliando; olhou-me direto nos olhos com um sorriso no canto da boca e disse: 

— Aceito, mas você está atrasado.

Uma resposta a “Caminhos”

  1. Avatar de Fernando Paiva

    Olar.
    Só queria agradecer a oportunidade de ser lido e publicado por vocês.
    Aos leitores que quiserem tirar dúvidas — ou só uma onda — estou por aqui ou no insta (@fernando.spaiva)

    Curtir

Deixe um comentário