Gutenberg Löwe
— Como é a experiência de estar do outro lado? — perguntou a apresentadora. Batia as unhas sobre a capa do livro.
— É algo surreal, pois nunca tinha imaginado que acabaria escrevendo algo de protesto. A farda te desumaniza, mas teve um momento em que veio o estalo. — Vicente pausa para fazer o barulho com os dedos. — E aí comecei a bater na máquina o primeiro conto. Daí em diante, não parei mais.
— É o trabalho que abre a coletânea?
— Não, foi o “Flores para mães”.
— Como veio a inspiração para ele? É muito… bruto. Visceral, até. Não consegui terminar a leitura sem chorar.
— Uma mãe que me parou, segurou firme em mim e gritou: me dê pelo menos os ossos dele para enterrar. Isso desestabiliza qualquer um. Eu só seguia ordens, embora muita gente ache que debaixo da farda só tem ódio descerebrado.
Vicente fez uma pausa. Baixou os olhos para o tampo da mesa. Respirou fundo, olhando bem para a apresentadora antes de voltar a falar.
— Nunca quis fazer nada daquilo.
— Pois é, gente! Não vamos generalizar. Aproveitem para conhecer Vicente Almeida e seu livro vencedor do Jabuti, Subversivo — Ditadura e Literatura. Boa noite!
***
— Quer tomar alguma coisa agora? — ofereceu a entrevistadora, sorrindo. — Talvez aproveitar o resto da noite.
Quando ele imaginaria ser convidado para uma entrevista com a Adriana Marcondes? Nunca. Ter a chance de acabar na mesma cama que ela? Nem mesmo nos sonhos mais intensos.
— Será um prazer — devolveu ele, sorrindo.
— Sem dúvida.
Foi mesmo, e por mais de uma vez. Quando terminaram exaustos, Vicente não resistiu ao clichê e foi fumar na sacada do apartamento dela. Tudo ali era transparente, permitindo que visse toda cidade aos seus pés. Finalmente cheguei ao topo.
— Só que não foi você quem chegou, né?
O escritor virou-se para dentro, esperando encontrar Adriana, mas ela dormia. Não havia vizinhos no mesmo andar e o sujeito debaixo também não estava lá.
— Estou aqui em cima, vagabundo.
Vicente subiu os olhos devagar. A mão se prendia à sacada para evitar a tremedeira. Um homem estava pendurado de cabeça para baixo no teto. Os joelhos se dobravam sobre uma viga e os braços passavam sob ela; mãos e pés amarrados, a única posição que restava para ele era ficar recurvado. Pelo acúmulo de sangue na cabeça, parecia que os olhos tinham inchado, prestes a explodir.
Não deveria ter voltado com a cocaína, mas como poderia ter resistido ao convite de Adriana. Agora, como um efeito colateral daqueles momentos de gozo vinha a alucinação? Sacanagem.
Precisava passar por aquela bad em casa. Não era a primeira desde que publicara o livro, abandonando a farda e tornando-se o tipo de civil que ele combatia. Agora acabou, e você saiu por cima disso. Ganhou prêmios, contrato com editora grande e um dinheiro bom para um país em que o povo não lia.
— Inclusive você, milico desgraçado. — Voltou a voz, mas Vicente não desviou-se das roupas que vestia.
Saiu do apartamento sem fazer barulho, fugindo como um ladrão. Bem apropriado. O pensamento surgiu num relampejar. Em seguida, estremeceu todo o corpo. Quase caiu no elevador.
— Tudo bem chefia?
Ele assentiu e passou o endereço ao taxista. Prometeu um extra se chegassem rápido e em silêncio. Desabou no banco de trás.
Passou a viagem inteira de olhos fechados, assoviando uma música. Tentava manter afastados os pensamentos sobre o pau-de-arara.
Nem viu quando entrou em casa. Foi até a caixinha de remédios e tomou um coquetel. Pegou de tudo que tinha sem nem olhar os nomes.
— Canalhice não tem cura, Vicente — disse de novo a presença. Estendia-se no teto do banheiro.
O escritor correu para a sala, mas lá estava seu tormento. Foi para a cozinha e a mesma coisa. Buscou refúgio no seu quarto, sem sucesso. Tentou, por fim, deixar a casa, mas a fechadura não cedia.
— Você apagou minha existência…
— Só entregava o pessoal, minha mão nunca ficou suja de sangue — murmurou Vicente para dentro.
Sua função sempre fora apenas aquela: fazer a apreensão dos elementos subversivos e os encaminhar ao DOPS. O que aconteceu depois nunca foi problema dele.
— Então roubou minha voz…
Como se fosse uma criança conduzida pela mão, a memória de Vicente o levou até um momento particular. Era para ser outra prisão qualquer, mas algo chamou a atenção do policial.
— Podem ir — dissera ele para os soldados que levavam o preso desacordado. — Tenho que conferir uma coisa.
Era um bolo de papéis datilografados. Provas contra o desgraçado, mas, quando as tocou, uma sensação diferente veio. Uma coceira de curiosidade que o fez ler a primeira linha, depois a segunda e por fim separar aquilo para si em vez de levar para a delegacia.
Mais tarde, apresentou como se fossem seus aqueles escritos. Primeiro para uma conhecida que dava aula no Estado.
— Não sabia que você tinha essa sensibilidade — comentara na cama.
Resolveu seguir seu conselho e procurar alguém que publicasse. Saiu primeiro como pseudônimo e, depois dos prêmios, Vicente largou a farda para vestir a máscara de autor prestigiado.
Viveu o sonho.
— E agora vai experimentar o meu pesadelo — declarou o morto, impassível.
Num instante, a percepção de Vicente se inverteu. Agora via o quarto de ponta-cabeça. Braços e pernas ardiam como se em brasa enquanto o sangue pressionava os ouvidos, se acumulava nos olhos.
Um grupo de militares entrou no quarto. Violaram o corpo e a alma do colega traidor. Fizeram-no confessar que tinha traído até Jesus. Mas eles continuavam voltando para mais perguntas — insaciáveis.
— Faço qualquer coisa para acabar com isso! — O grito ecoava nas paredes vazias. Silêncio e solidão como resposta. — Apenas faça isso parar!
***
No dia seguinte, manhã após Finados, todos os jornais traziam uma variação da manchete sobre o destino de Vicente Almeida:
Gênio trágico — autor revelação encontrado morto.
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