Nas Ondas do Rádio

Beny Barbosa

Carlinhos era um menino de onze anos que morava na localidade de Açude Seco, interior do nordeste. O lugar levava esse nome porque, diziam os mais antigos, que certo dia toda a água do açude foi sugada pelo céu, levando também todos os peixes.

Carlinhos um pouco diferente de seus amiguinhos, pois preferia ficar na companhia de seu tio Luís, que era radioamador, do que jogar bola com as outras crianças. Assim que chegava da escola esperava o tio chegar do trabalho para juntos, ouvirem aquelas pessoas falarem em uma língua estrangeira. Para o pequeno, aquilo era muito instigante e os dois brincavam de traduzir o que elas estavam falando. Frequentemente riam bastante, pois achavam esquisitos aqueles sons. Dessa forma, passavam um longo tempo juntos e assim, iam fortalecendo os seus laços afetivos. O pai de Felipe não gostava muito da amizade entre o filho e seu irmão, pois achava que ele era meio maluco e que poderia influenciar o menino. Contudo, não tinha jeito, tio e sobrinho estavam sempre grudados.

Certo dia, já alta noite, quando todos estavam dormindo, ouviu-se um grito vindo do lado de fora da casa; o pai de Felipe acordou e levantou-se de um pulo e correu até o terreiro para ver que se passava. Quando ele chegou lá, viu o tio Luís completamente nu, gritando palavras inaudíveis. A mãe de Carlinhos e as demais crianças correram também para ver o que se passava e se depararam com aquela cena apavorante: o pai do menino sobre o corpo franzino do irmão, tentando acalmá-lo, pois àquela altura, ele se debatia sobre o chão de terra batida.

A vizinhança foi se aproximando para saber o que estava acontecendo e também ver no que podia ajudar. Alguns homens de maior compleição física ajudaram o seu Cláudio, na contenção do irmão. Enquanto isso, a rezadeira do lugar, ia dedilhando o seu terço e orando sobre a cabeça do tio Luís, procurando acalmá-lo e afastar qualquer possibilidade de uma possessão demoníaca.

Depois daquele dia, tio Luís tornou-se um homem mais calado e arredio. Quando as pessoas perguntavam sobre o que acontecera naquela noite, ele desconversava a fim de evitar especulações sobre o assunto. Desde então, ele passou a ser considerado louco pela família e pela vizinhança, menos por Carlinhos.

A partir daquele dia, o equipamento de radioamadorismo do tio Luís ficou encostado no canto do quarto, pois ele tinha perdido a vontade de escutar as rádios estrangeiras e brincar de se comunicar com seres alienígenas.

Certo dia, ao chegar do trabalho na roça, tio Luís, ao entrar em seu quarto, se deparou com Carlinhos mexendo em seu equipamento de radioamadorismo; assim que o viu, gritou:

−Menino, larga isso daí!

Carlinhos, assustado, virou-se para o tio e sem nada falar, soltou ao chão o pequeno fone de ouvido e ficou de pé.

Tio Luís se aproximou do sobrinho, olhou nos olhos dele, o segurou pelos braços e disse:

−Nunca mais mexa nisso aí, entendeu, Carlinhos?

−Mas, por que, tio?

−Isso é coisa do demônio.

Carlinhos nada mais retrucou e saiu correndo do quarto do tio, deixando- o sozinho.

Apesar de a vida transcorrer aparentemente de forma natural no sítio Capim Maduro, foi observado que o Tio Luís estava cada dia mais arredio e preocupado com alguma coisa. Não foram poucas as tentativas de seu Cláudio para aproximar-se do irmão. A cunhada, mãe de Carlinhos, não conseguia convencê-lo de ir à missa aos domingos e confessar-se com o padre, pois ela desconfiava que ele poderia estar possuído pelo Sete Peles. O menino, contudo, não desistiu do tio. Fazia festa quando ele chegava da roça, causando ciúmes tanto no pai, como na mãe.

Era noite, quando todos já dormiam e tio Luís ainda não havia chegado. Carlinhos que ainda não conseguira pregar o olho, resolver ir até ao quarto do tio. Chegando lá, encontrou a aparelhagem dele no canto, desligada. Como havia escutado que o tio iria vender o equipamento, o menino decidiu experimentá-lo pela última vez. De frente ao aparelho de rádio amadorismo, fez todos os procedimentos de conexão como tio lhe ensinara e em pouco tempo, estava escutando rádios de todo o planeta. Entretanto, depois de alguns minutos, escutou algo que lhe surpreendeu. Apesar de não ter entendido muito bem a mensagem compreendeu que algo grave estava prestes a acontecer. Naquele momento, tio Luís entrou no quarto e não gostou nada do sobrinho ter lhe desobedecido:

−Já lhe disse que não quero você mexendo nesse troço, Carlinhos!

−Tio, o que tá acontecendo?

−Menino, fique fora disso!

−Eles vão invadir a terra? Como nos filmes da televisão?

−Cala a boca, menino! Fala baixo!

−Mas tio…

−Você quer ser chamado de doido, assim como eu?

−Eu…

−Então esquece essa história e vai dormir! Chispa daqui!

Carlinhos saiu correndo do quarto do tio, mas o que escutou lhe deixou cismado.

Apesar de aparecerem alguns compradores para a aparelhagem de comunicação do tio Luís, ele acabou não a vendendo, apesar da insistência do irmão e da cunhada. Carlinhos, por sua vez, gostou da desistência do tio. Aos poucos, tio e sobrinho reataram a amizade e voltaram a compartilhar as ondas do rádio.

Daquela vez, a internação do tio Luís em manicômio foi inevitável, pois mais uma vez ele surtou depois que escutou uma mensagem vinda de sua aparelhagem. Ele gritava desesperadamente:

-As águas vão voltar, e eles também! As águas vão voltar e, eles
também! -Os ETs vão voltar! -Repetia ele, desesperadamente.

Por muitos dias o silêncio tomou conta da casa da família de Carlinhos. A sua mãe fazia o possível para distrair as crianças, enquanto seu Cláudio era a tristeza em pessoa, pois sabia que perdera o seu irmão para sempre, assim como aconteceu com o seu pai, o velho Sebastião, que também endoidou no final de vida.

Foram dias estranhos aqueles que seguiram no sitio Matraca. As pessoas que ali moravam evitavam falar sobre o ocorrido e sobretudo, mencionar o nome do tio Luís. Carlinhos passou uns dias sem ir à escola,
apesar da insistência de sua mãe. Além da tristeza que se abateu sobre aquela família, a comunidade toda passou a discriminá-los, pois naquele tempo, ter um parente louco, não era algo aceitável. Passaram-se dois anos daquele episódio da internação do tio Luís, que fora esquecido em um manicômio da capital. Carlinhos, entretanto, jamais esqueceu dele e do que escutou do tio e do que ouvira nas ondas do rádio.

Voltar pra escola não foi uma opção, mas uma obrigação ditada sobretudo por sua mãe, uma vez que seu pai entrou em total estado de depressão depois do acontecido com o seu irmão amado. Só depois de muita insistência da mãe e uma promessa de surra do pai é que Carlinhos resolveu voltar à escola, desde que a sua mãe o permitisse ir e voltar de bicicleta.

A estrada de terra batida que levava até a escola, passava necessariamente pelo açude que há anos não tinha uma gota d’água, mesmo em tempo de chuva. Sobe a velha bicicleta dada de presente por seu tio Luís, Carlinhos seguia para a escola, debaixo do sol escaldante do sertão nordestino. Apesar se conhecer bem o caminho naquele dia, o menino parou diante da grande bacia seca.

De repente, um vento forte levantou a areia seca, formando pequenos tornados e em seguida começou a cair uma chuva fina. O menino achou estranho, pois não era tempo de inverno, mas de qualquer forma, correu para se proteger dentro de uma fenda rochosa. Inexplicavelmente, as nuvens escureceram sobre o vazio do açude, e um grande volume de água caiu sobre ele, enchendo-o totalmente. Olhou para cima e viu vários peixes caindo do céu, que ao tocarem na água, saiam nadando. Apavorado com o que estava
presenciando, Carlinhos tratou de pegar a sua bicicleta e sair dali imediatamente. Contudo, antes que alcançasse o seu intento, escutou um estrondoso barulho; ele olhou mais uma vez para cima e viu uma espécie de avião descer na vertical e pairar sobre o espelho d’água.

Naquele instante, Carlinhos teve a certeza de que o pior pesadelo de seu tio estava se concretizando: a invasão alienígena estava acontecendo.

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