
Vin Lee
Acometido por ligeira tontura, Markos se apoiou na parede de pedra com as costas e balançou a cabeça.
Deve ser esta caverna, pensou ao se equilibrar novamente.
Espada e tocha nas mãos, o guerreiro prosseguiu sua busca: se o feiticeiro Urkhos estava escondido ali, certamente estaria nas profundezas do antigo templo, onde o ar era cada vez mais viciado, dificultando a respiração. Teias enormes cobriam as passagens, com suas tecelãs imóveis no centro; presos nos fios, ratos, escaravelhos e moscas ressecadas.
Antes de seu alvo se refugiar ali, o lugar permaneceu abandonado desde a aniquilação da seita de Ghoros, o Deus Profano do Âmbar, Pai da Estagnação, adorado no âmago do santuário maldito. Sua figura grotesca estampava os pilares e as paredes destruídas. A presença de Urkhos fazia-se evidente nas pegadas sobre a poeira no chão, intocado havia séculos.
Os boatos envolvendo sequestros de viajantes na estrada e o interrogatório de um dos capangas de Urkhos levaram à descoberta do laboratório secreto escondido no templo abandonado, onde o feiticeiro usava as vítimas como cobaias em experimentos terríveis. Markos não o mataria por dinheiro, apenas pelo desgosto nutrido contra o terrível vilão. A lâmina, polida com o melhor óleo e afiada com vigor, refletia o fogo da tocha na outra mão.
O homem alcançou uma grande câmara, onde adoradores de Ghoros, no passado, realizavam suas cerimônias horrendas. Acendeu os braseiros espalhados para iluminar o local, a luz revelando o que seus ouvidos já tinham deduzido: os acólitos, abandonados na escuridão por seus carrascos, haviam apodrecido até não passarem de ossos. No topo de uma escadaria, a barriga saliente de uma estátua enorme e depredada do Pai da Estagnação abrigava uma passagem.
Subindo as escadas, deixou a tocha cair: tonto, fechou os olhos, vendo um turbilhão de pontos brilhantes explodindo no escuro de suas pálpebras. Ao reabrir os olhos, deparou com um sacerdote de Ghoros, vivo e bem, correndo para atacá-lo com uma adaga cerimonial. Seus reflexos aguçados permitiram-lhe desviar-se do acólito insano, que provavelmente o julgava um infiel em solo sagrado. Os dois trocaram golpes de lâmina até que um deslize do sacerdote permitiu a Markos revidar com um corte na nuca do sacerdote, cuja cabeça rolou pelos degraus. Contudo, ao final das escadas, ela era apenas um crânio empoeirado. O corpo, outrora vivo, do oponente revelou-se uma ossada vestindo trapos ainda não devorados pelas traças.
Pelos deuses, o que foi isso?
Em vez de investigar o estranho incidente, entrou na barriga do deus maldito, determinado a seguir aquele túnel e encontrar o alvo. Chegou à sala onde o sacerdote guardava tomos, incinerados, e entrou por outro caminho, chegando a um pavilhão de celas. Os grilhões nas paredes ainda seguravam os braços das vítimas que haviam perecido ali. O aventureiro aproximou-se das celas, até uma súbita cacofonia de gritos assustá-lo.
Viu-se cercado de prisioneiros, cada um sofrendo uma tortura diferente.
Em uma das celas, um homem convulsionava, transformando-se ora em bebê, ora em homem, ora em ancião, tudo em um piscar de olhos, como preso entre passado e presente. Em outra, uma mulher se encolhia enquanto duas hienas risonhas e famintas se soltavam das correntes. Entretanto, antes de avançarem sobre a presa, voltavam para as correntes, forçando a mulher a reviver o momento de terror para sempre.
Markos tentou salvá-los, bem como a outros, que agonizavam no pavilhão, mas seus esforços foram em vão: os prisioneiros estavam mortos havia muito tempo: a inércia da tortura era neutralizada quando o guerreiro finalmente abria as celas apenas para se deparar com ossadas que não estavam lá anteriormente. Seu sangue ferveu quando lembrou-se do que Urkhos havia feito com os viajantes fora do templo: algo muito similar ao que ocorria ali.
Correu pelo túnel, tentando ignorar os pedidos de ajuda.
Ao sair do pavilhão, encontrou um cenote: as estalagmites, abaixo, pareciam dentes de um peixe abissal, prontas para engolir uma presa na escuridão. Podia ver alguns degraus submersos. Retirou armadura, botas e mochila, levando consigo apenas a espada embainhada. A água gelada não foi suficiente para deter o guerreiro, que desceu pelos degraus até submergir completamente. Tateando na escuridão, seguiu o caminho até avistar uma luz nas profundezas.
Proveniente de tochas espalhadas pelo túnel, a luminosidade dava em um bolsão de ar. Markos se aqueceu e se secou antes de prosseguir, certo de que se aproximava do feiticeiro. Caminhou pelas rochas calcárias, com cuidado para não cortar as solas do pé ou fazer barulho. Estava perto demais para colocar tudo a perder por conta de desleixo.
Assim que alcançou um trecho do túnel, ouviu o eco de vozes vindas do final: em uníssono, um cântico em uma língua esquecida reverberava nas paredes de pedra.
Seus músculos enrijeceram, sua boca secou e seu coração acelerou conforme se aproximava da origem das vozes. Chegando ao local da cerimônia, repleto de cultistas em transe, foi prontamente abordado por três homens que não participavam do rito.
No topo do altar, um homem magro e careca trajava um manto laranja. Concentrando-se para continuar o ritual, o urubu em forma de gente, urrou para seus asseclas:
― Não deixem que ele interrompa o ritual de novo!
Markos foi mais rápido: dois inimigos logo caíram, cortados por sua espada. O terceiro encontrou seu fim alvejado por um raio fulgurante disparado pelas mãos do próprio Urkhos, que errou o alvo em um ato de desespero. O guerreiro correu, passando pelos acólitos em transe, enquanto o feiticeiro tentava completar a magia profana.
A mão do vilão voou com o golpe de espada que o fez gritar de dor.
No altar, uma joia âmbar brilhava sobre o mármore. Apenas vê-la fez com que se sentisse tonto novamente.
― Por favor, sei o que vai fazer; não destrua a joia novamente! ― suplicou o feiticeiro, segurando o próprio pulso, do qual jorrava sangue.
O guerreiro ficou intrigado: novamente? Contudo, quando Urkhos se aproximou, os reflexos do guerreiro superaram sua curiosidade. Com o pomo da espada, ele estilhaçou a joia em mil pedaços, fazendo surgir uma luz ofuscante que o cegou.
***
Acometido por ligeira tontura, Markos se apoiou na parede de pedra com as costas, balançando a cabeça.
Deve ser esta caverna, pensou ao se equilibrar novamente.
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