Varandas

Vin Lee

Beto bateu o cigarro na barra de ferro para que as cinzas caíssem, ansioso pela aparição diária de Verônica em sua varanda. 

Esse não era seu nome verdadeiro, mas ela tinha cara de Verônica. Ele sempre gostou do nome. 

Seu coração acelerou quando ela surgiu entre as cortinas do apartamento. Acendeu um cigarro e aproveitou para banhar-se ao sol. 

Beto a admirava de sua varanda: vestia shorts jeans desbotado e uma regata branca, olhava para o horizonte com olhos semicerrados, cantos da boca entortados em um discreto sorriso enigmático. Beto se encantou com a maneira do Sol brilhar, apenas na varanda da moça, espiando só com canto de olho, teve medo de ser flagrado. Havia descoberto ela em uma pausa do trabalho que o mantinha prisioneiro em sua própria casa. 

A moça apagou seu cigarro e voltou para seu apartamento. Beto esperou um pouco, fingindo que não havia saído para babar por ela. Por ora, voltaria para sua rotina medíocre.

À noite, pensava em Verônica e, ao dormir, sonhava com ela em situações improváveis; ele, com um físico idealizado e um carisma magnético, encantando-a com seu charme e deixando-a louca para se jogar aos seus braços. 

Pela manhã, sua rotina era tolerável apenas pelo consumo de café e remédios controlados. Mal acordava já grudado no computador, digitando lauda por lauda de formulários médicos impessoais, amaldiçoando a própria ingenuidade. Achou que traduziria coisas mais interessantes, como romances ou biografias, assim como a agência tinha prometido que encaminharia. 

“Porra, que tipo de assunto vou falar com ela, diferentes terapias para tratar a próstata aumentada?“

Pela tarde, seu humor melhorava e o barulho das teclas já não incomodava tanto, pois já estava na hora. Saiu cinco minutos antes e acendeu o cigarro. Já estava quase aprendendo a gostar de fumar, começou o hábito apenas para não ficar de mãos abanando, denunciando sua própria perversão. 

Pontualmente, Verônica saiu para fumar na varanda, cabelo amarrado em uma trança que repousava sobre o ombro direito, baby look vermelho e o mesmo shorts jeans desbotado. Devido à distância, Beto não conseguiu ver direito: será que ela havia acenado para ele? Seu coração disparou, ele engasgou com a fumaça e correu para dentro do apartamento, todo esbaforido. 

“Ela sabe que eu existo”, pensou, arfando. 

Na mesma noite, procurou dicas para curar a calvície e comprou um conjunto de pesos pela internet: era hora de ficar em forma. 

Pela manhã, dispensou o café da manhã, preferindo os exercícios calistênicos. As abdominais foram uma tortura. Polichinelos? Só dez. Flexões, nem ousou. Enraivecido, bateu no próprio rosto várias vezes; como poderia levantar pesos se não conseguia domar o próprio corpo? A semana passou e Beto suou mais do que durante toda sua vida. Sentia cada fibra de seu corpo arder e parava apenas para comer uma maçã e iogurte. 

Na segunda-feira da semana seguinte, olhou para o espelho e viu que havia feito progresso. Pouco, mas fez. Evitou comer e bebeu apenas goles de água para que não inchasse antes das três horas.

Três horas viraram três e meia, que viraram quatro. Estava quase desistindo quando ela saiu do apartamento, mas, para seu horror, estava acompanhada por outro homem, que a tomou em seus braços e a beijou. Beto entrou em casa, sentindo repulsa pelos dois. 

Os dias se passaram: e-mails acumularam até resultarem em desligamento da agência, enquanto seu equipamento de musculação juntava poeira e roupas usadas. Se Beto dormia, não percebia. Odiava dormir e encontrar Verônica em seus sonhos, pois sabia que aquele fragmento de sua imaginação era baseado em uma mentira.

Durante o dia, vasculhava a internet atrás de distração. Fez inúmeros questionários para saber com qual personagem da ficção mais se parecia, entrou em sites de bate-papo instantâneo por webcam, mas sempre era rejeitado, especialmente por mulheres. Isso o enfureceu e ele mergulhou de cabeça na internet, até encontrar o site anonchan. 

Nunca havia visto algo parecido e achou confuso no começo: ninguém se identificava, a não ser por letras e números, sendo o anonimato algo sagrado entre eles. Sentiu que havia encontrado uma sociedade secreta, operando sob a superfície da internet, temeu até ter acessado a temível deep web. 

Se espantou com a maneira que aqueles usuários anônimos se referiam às mulheres, mas encontrou lógica em seus relatos de fracasso nas relações, concluindo que, embora o jeito como se expressavam fosse chocante, era justificado. 

Quanto mais tempo passava navegando naquele site, mais absorvia o êthos de seus usuários. Nunca se interessou por política, mas viu como a sociedade caminhava para sua total degeneração após o homem, alicerce e ganha-pão da família tornar-se obsoleto, graças a programas do governo, e, como não rezava ou frequentava a igreja, era praticamente ateu: depois do anonchan, sentiu sua alma pela primeira vez, especialmente quando passou a acompanhar pensadores, gurus e pastores que batalhavam para que os homens santos voltassem a trilhar o caminho. Também confrontavam o politicamente correto, o esquerdismo e o feminismo. 

Beto passou a sentir-se muito tolo quando lembrava de seus dias na escola, das mentiras que seus professores de História contavam. Se espantou com a lavagem cerebral que faziam nas mentes impressionáveis das crianças, moldando-as para serem engrenagens de uma das máquinas da nova ordem mundial, que trabalhava dia e noite para minar os valores morais e culturais do Ocidente. Agradecia, de coração, por ter encontrado aquele bastião de moralidade.

Sentiu-se acolhido naquele espaço e decidiu contar sua história. 

Se entusiasmou quando seus novos amigos comentaram seu tópico. Claro, ficou incomodado quando o chamaram de BOP, escravoceta e mangina, mas uma boa parte ofereceu conselhos do que deveria fazer.

Encorajado pelos anônimos, decidiu dar um basta naquilo e virar um guerreiro santo.

Primeiro, precisou se preparar: começou a fazer a dieta paleolítica, sempre no período 16:8 de seu jejum intermitente e o café passou a ser “à prova de balas”. Consertar a dieta era o mais difícil, mas, quando consertasse, o resto seria mais fácil. Jogou os remédios pela privada, seguindo os conselhos dos seus novos gurus que, embora não fossem médicos, sabiam como Beto se sentia, até melhor que qualquer profissional da saúde. 

Espanou os pesos que comprara e passou a realizar exercícios recomendados pelos alfas dos canais de PUA. Nunca mais mudou a temperatura do chuveiro, sempre preferindo tomar banho gelado, deixou de dormir na cama, preferindo o chão, para corrigir a postura, e seu sono não passava de quatro horas de duração. 

“Pelo menos, aquele depósito de porra me colocou no caminho para cuidar de quem realmente importa para mim”, disse Beto ao se preparar para o grande dia, uma semana depois.

Já havia passado na frente do prédio dela algumas vezes. Foi de carro, faca escondida no porta-luvas e estacionou perto do portão da frente, esperando ela surgir. Embora debilitado pela falta de sono e pela abstinência de remédios, Beto sentiu seu corpo enrijecer, pronto para o ataque, quando viu Verônica saindo do prédio com o homem que a havia tomado dele. 

Saiu do carro e foi em direção a eles, faca em mãos. 

***

Após seis meses de fisioterapia, Júlia já conseguia andar com auxílio de muletas, que, assim como a bolsa de colostomia e os imunossupressores, haviam se tornado parte de sua vida. 

Esquivou a imprensa durante semanas até estar finalmente confiante para contar sua história, apenas para calar as teorias idiotas que propagavam. 

“Como alguém pode imaginar que alguém faria isso por causa de amor não-correspondido?”

Ficou de frente para a repórter, ciente das perguntas que ela faria. Foi acompanhada pela mãe ao estúdio pelo apoio moral. 

― E você não conhecia ele? 

― Não, nunca o vi antes.

― A polícia encontrou publicações dele em uma rede social, onde usuários o incentivaram a fazer o que fez. Tinha ciência dessa rede? 

Sua garganta pareceu entupir ao lembrar da faca em sua barriga. Ela lembrou da dor que a fez ajoelhar no chão e do desespero que sentiu ao ver Eduardo lutando contra o homem ensandecido, perdendo a batalha quando a lâmina entrou no olho do namorado. O agressor a quem viria a conhecer como Roberto Pereira podia estar encarcerado após o incidente que foi notícia em todos os noticiários sensacionalistas do país, mas ela sentia que, a qualquer momento, ele voltaria.

Seus olhos debulharam em lágrimas e a entrevista teve de ser interrompida.

Sua presença na internet tinha desaparecido, pois era assediada por fakes com fotos de anime todo dia, ameaçando terminar o que Roberto havia começado, enquanto as pessoas supostamente normais lamentavam o ocorrido, mas achavam que ela deveria ter dado uma chance para ele. 

Influencers surgiram como urubus sobrevoando uma carcaça: embora dissessem que Roberto havia errado, tentavam justificar o que ele havia feito, que sua “cruzada” era nobre, mas conduzida de maneira errônea. A cada dia que passava, eles ganhavam mais seguidores, todos condenavam o que ele havia feito, mas que fariam o mesmo caso tivessem passado pelo que ele havia passado.

Na TV, a mesma emissora que entrevistou Júlia já havia anunciado uma exclusiva com Roberto, em uma chamada que destacava as cartas que ele recebeu na prisão, tanto de mulheres apaixonadas quanto por admiradores. Vê-lo fez com que a mulher instintivamente procurasse pela arma mais próxima, seu coração batendo a ponto de quase sair do peito.

Sem internet, sem TV e sem o mundo lá fora, Júlia ficava dentro de casa o dia todo, todos os dias, com medo de estar sendo vigiada. Mesmo após mudar e com a mãe fazendo companhia em casa, não tinha coragem nem de tomar sol na varanda.

Era um fantasma em sua própria vida.   

3 respostas a “Varandas”

  1. Uma história potente. Não só sua primeira parte quando vemos a criação da figura monstruosa do Roberto, mas principalmente no reflexo dela na vida da pobre Júlia. Um retrato do que acontece tanto e só se consegue ter a dimensão quando acontece uma tragédia como a descrita.

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  2. Fantástico. Acompanhamos o assassino no seu crescendo de ideias absurdas e nocivas. E depois entramos na cabeça da vítima, sentindo seu medo, não apenas imediato, mas um medo que invade sua vida, difícil de dissipar.

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