Eu, Labatut

Lucas Brito

    O vento frio sibilava por entre as carnaúbas, produzindo um som agourento semelhante a um uivo. No céu, a lua resplandecia, cheia, prateada. Já se aproximava da meia-noite e, naquela hora, não havia mais vivalma nas ruas de Apodí, no Rio Grande do Norte. Localizada em cima da Chapada de mesmo nome, a cidadezinha era dessas onde se dormia cedo – costume herdado dos antigos que, ainda hoje, pode ser observado em algumas localidades mais remotas. 

    Aproximo-me do lugar deserto, à procura de alguma presa desavisada andando sozinha nessas horas mortas. Tenho fome de carne – carne humana, especialmente carne de crianças, mais macia e suculenta. Lentamente, vou me esgueirando pelas ruazinhas silenciosas, ouvindo ao longe os cachorros perdidos latindo, alertas à minha chegada. Engraçado: as pessoas pensam que moro no fim do mundo e, nas noites de lua e ventania, corro o mundo inteiro à procura de caça. Tolos: mal sabem eles que vivo mais perto do que imaginam.  

    Os minutos se passam e nada. Com certeza, todos já estão dormindo, incluindo as crianças, desde cedo alertadas por seus pais sobre mim. “Cuidado, se você ficar até tarde na rua em noite de lua, um monstro vai te pegar e te devorar vivo!”; “Não saia de casa, menino! O Labatut anda por aí e vai te levar”. Não é à toa que, ultimamente, caçar está ficando mais difícil. Parece que, outra vez, vou embora daqui de mãos abanando. E faminto. 

Mas eis que, inesperadamente, ao dobrar uma esquina, avisto alguém: é uma menina, uma jovem com os seus quatorze ou quinze anos, na flor da idade. Perfeito! Ela está de costas, andando apressada. Farejando o ar, sinto o cheiro do medo que ela exala, o medo feminino das coisas que podem acontecer ao andar sozinha pelas à noite. Com cautela, aproximo-me de minha mais nova presa e, sem que ela espere, parto para o ataque, agarrando-a em meus braços e partindo a toda velocidade dali, levantando um rastro de poeira pelas ruas de pedras soltas. Ela grita ao perceber o que está acontecendo, mas é tarde demais: dentro de mais alguns instantes, ela será a minha refeição. Irei devorá-la lentamente, saboreando enquanto minhas presas rasgam sua carne virgem e pura e, ao mesmo tempo, seu sangue sacia a minha sede, maior que a de um vampiro.

Em pouco tempo já estou fora da cidade, me aproximando de uma caverna. Ao entrar, largo a garota no chão de pedra, enquanto a observo continuar a gritar apavorada ao ver meu rosto. Não mais o rosto de um homem comum, mas o rosto de um monstro, resultado de uma maldição proferida há quase dois séculos.

* * *

    Ceará, ano de 1832. Meu nome era Pierre Labatut, um general famoso do exército francês que veio para o Brasil a convite de sua majestade, o imperador Dom Pedro I, com a missão de pacificar algumas regiões do país que ainda se opunham à recente independência brasileira. Aqui e acolá estouravam conflitos e insurreições contra a unificação do país. Diante disso, o Governo imperial me pediu pessoalmente que ajudasse a dar um fim a seus opositores.  

    Partindo do Rio de Janeiro, percorri vários lugares desse país tropical acabando com os inimigos do imperador, como aqui no Nordeste. Aos poucos, minha fama começou a se espalhar sertão afora, graças a meus métodos de combate – pouco convencionais, devo admitir – mas eficientes. Fiquei conhecido como impiedoso e sanguinário, um verdadeiro monstro, que sentia prazer em fuzilar negros, surrar e estuprar escravas, dentre outros requintes de crueldade das mais variadas formas. Na Bahia, em 1822, assisti com prazer ao fuzilamento de cinquenta negros de um quilombo. Confesso que muito disso era verdade sim, mas “os fins justificam os meios”, como diria Maquiavel. Por causa de minhas atitudes nada louváveis aos olhos do mundo dito civilizado, os conflitos acabaram e as tropas sob meu comando saíram vitoriosas.  

    Mas foi nesse ponto que minha perdição começou. Certa vez, eu e meus homens – éramos chamados de Exército Pacificador – estávamos no Ceará, reprimindo mais uma revolta, a assim chamada Insurreição do Crato, liderada por Joaquim Pinto Madeira. Não foi difícil: a rebelião já estava em seus momentos finais quando cheguei e o próprio Pinto Madeira rendeu-se à mim. Mas antes de entrega-lo às autoridades para que recebesse a pena de morte por fuzilamento, ele me olhou nos olhos e disse:

    — “De hoje em diante, para fazer jus à tua sede de sangue e morte, você será visto como um monstro pelo restante dos homens. Deformado, se esconderá da vista durante o dia e andará de noite quando a lua sair e o vento da madrugada soprar, à procura de homens, mulheres e crianças para devorar, para saciar uma fome que nunca tem fim. Teu nome será sinônimo de mau agouro sertão afora e todos lhe terão medo. Para eles, o nome Labatut causará mais medo do que o Lobisomem, a Burrinha, a Caipora e os outros demônios que se escondem nessas matas.” 

    Na hora, não dei atenção às palavras do prisioneiro: eram apenas desvarios de um velho à beira da morte. Cumpri minha missão e o entreguei às autoridades. Caso encerrado. Ou, pelo menos, era o que eu imaginava. 

Porém, com o passar do tempo, notei algo diferente em mim, algo profano. Aos poucos, passei a sentir um desejo incontrolável por carne humana, o que me tornava ainda mais cruel nas missões ou a executar algum prisioneiro. Porém, quando a noite chegava, com ela vinha também um impulso irresistível que me fazia voltar escondido ao local e desenterrar o cadáver para comer sua carne podre e beber seu sangue. E – pior de tudo – eu passei a gostar daquilo, de agir feito um canibal selvagem. No início, ninguém desconfiou de mim e de meu terrível segredo. Porém, tudo mudou durante uma batalha em 1840, no Rio Grande do Sul, contra o exército dos Farrapos.

    Minhas tropas foram derrotadas vergonhosamente nesse dia. Em certo momento, completamente transtornado, me vi correndo pelo campo de batalha e ataquei um soldado inimigo, avançando contra ele e mordendo seu rosto com uma fúria desmedida. Os homens ficaram em choque ao me verem arrancar pedaços de olhos, nariz e orelhas daquele pobre coitado. Mas eu estava fora de mim, dominado por um instinto animalesco. Foi aí que percebi o que realmente estava acontecendo ao me lembrar da maldição lançada por Pinto Madeira. Então, tudo estava consumado e eu havia me transformado num monstro como ele profetizara afinal.

    Diante da situação, abandonei o Exército naquele ano e desapareci Brasil afora, vagando sem rumo de um lugar a outro. Acabei me refugiando aqui no sertão nordestino, entre o Ceará e o Rio Grande do Norte. Mas, aonde quer que eu fosse, minha maldita fama me perseguia. Os sertanejos são um povo valente, porém muito supersticioso. Logo começaram a se espalhar rumores sobre um “monstro feroz e terrível, um gigante de pés redondos, peludo, de um olho só no meio da testa, presas enormes e garras afiadas, que devora homens, mulheres e, principalmente, crianças.” Embora com alguns exageros – minhas entranhas não ardem em chamas como dizem – nesse caso, eles tinha razão ao temer o meu nome pois, com o correr dos anos, a fome maldita me deixou deformado, sem qualquer traço de humanidade que um dia tive.   

    E assim tem sido minha vida há quase duzentos anos, amaldiçoado a percorrer esses sertões à noite, à caça de pessoas para matar uma fome imortal e profana. Por vezes tentei lutar contra isso, me recusando a matar e comer pessoas, preferindo atacar animais de criação como cabras, ovelhas e outros. Mas a maldição foi mais forte do que eu e não consegui resistir por muito tempo: logo, voltei a me satisfazer com a deliciosa carne humana. E assim permaneço até hoje. 

Acho que, dentro de mim, o monstro sempre habitou. A maldição só o trouxe à tona. 

* * * 

De volta ao presente, aqui estou com mais uma presa humana. Ela continua a gritar desesperada diante de mim, procurando em vão uma saída da caverna. Coitada, mal sabe ela que ninguém jamais escapou das garras de Labatut. Num salto, avanço sobre ela e a derrubo no chão, com uma das minhas mãos segurando seu frágil pescoço, que poderia quebrar com um só golpe. Mas, então, noto em minha presa algo que não havia reparado à primeira vista: a sua beleza. Olhos castanhos, pele morena, cabelos lisos. Nunca antes havia visto criatura tão bela nestas paragens secas! Por um breve instante, contemplo imóvel aquele rosto assustado, sem coragem de devorá-lo e profanar uma carne tão pura e bem feita. 

Aos poucos, sinto algo endurecer entre minhas pernas e começo a rasgar-lhe a roupa. Mas, quando menos espero, sinto logo em seguida algo pontudo perfurando meu único olho de ciclope. Atordoado pela dor e cego, deixo a garota escapar de minhas garras e ouço-a sair correndo dali a passos apressados. Pela primeira vez, uma presa minha reagiu, se aproveitando de meu momento de fraqueza. Como fui estúpido! Deixei-me encantar por aquela beleza juvenil, traiçoeira e imprevisível.

* * *

Já se passaram alguns dias desde que fui humilhado e ferido por aquela presa tão bonita. Desde então, tenho vivido numa escuridão eterna, de dia ou de noite, sem conseguir enxergar e caçar. Vivo dentro de minha caverna, com fome, tendo que me contentar com morcegos, cobras e outras coisas que, vez por outra, caem no chão perto de mim. 

De repente, escuto vozes e passos se aproximando da caverna. Logo depois, alguém grita: “Lá está ele! É o Labatut!”. E, então, ouço um som que há muito tempo não ouvia: o barulho de armas sendo engatilhadas. Por fim, vem o silêncio que antecede o disparo final.

Minha maldição chegou ao fim. 

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