Por Victor Alfons Steuck
Eu não criei a A Última Página. Na verdade, este sempre foi um projeto coletivo. A última página não nasceu como uma ideia isolada, mas de uma situação e um contexto muito específicos, o que me faz sentir, de certa forma, que eu, na verdade, descobri A Última Página. Me lembro bem da ocasião. A ideia veio de noite, enquanto eu lia “Sobre a Escrita”, de Stephen King. Conversando com Estela, minha namorada, ela sugeriu o nome “A Última Página”. Quando contei para Gabriel Coutinho Gehlen, ele comprou a ideia na hora e ajudou a criar e avaliar os concursos por várias e várias edições.
O aspecto coletivo, de a gente se encontrar para conversar sobre as histórias era a parte mais legal de tudo. Infelizmente o tempo passou e a vida jogou contra. Gabriel saiu do seu emprego na fábrica para se formar em Letras, e eu segui tocando o projeto sozinho, ao longo dos anos. O projeto se tornou algo que eu toco sozinho, mas a verdade é que ele nunca foi pensado para ser algo individual.
Hoje, A Última Página ainda existe só porque eu insisto. Mas essa insistência tem um custo. Eu não quero e não consigo sustentar tudo sozinho: pensar concursos, divulgar, ler, selecionar, publicar, administrar. Não faz sentido que um projeto que nasceu coletivo, que se alimenta do encontro e da conversa, vire uma tarefa solitária.
A Última Página também sempre foi guiada por uma revolta profunda contra a noção de propriedade intelectual. Desde o nosso primeiro edital, afirmamos que os direitos autorais permanecem com quem escreve, porque não acreditamos que obras de arte que existem no tempo e não no espaço, como é o caso da literatura e da poesia, sejam de alguma forma análogas à noção de uma propriedade que possa ser cercada. Ninguém é dono de uma ideia. Por este motivo, o prêmio compra o direito de exibir o texto, mantê-lo vivo nas nossas páginas, por tempo indeterminado. É uma forma de proteger a pessoa autora. É um absurdo o que editoras fazem com autoras e autores mundo afora, arrancando seus direitos, explorando trabalho criativo, diluindo e até apagando a autoria.
Tudo isso é fruto direto da estúpida ideia de colocar grades em volta de conceitos, ideias, histórias, melodias e poesias. O grande problema é que conceitos, ideias, histórias, melodias e poesias não são tijolos, não existem materialmente, no espaço, não podem sequer ser possuídos. Ao contrário, existem de forma invisível, no tempo, e toda e qualquer cerca de propriedade ou ideia de posse não passa de uma invenção útil para controlar a criação, perpetuar a censura e transformá-la em mercadoria travestida de liberdade.
Por isso, para nós, escrever não é e não pode nunca ser um ato de isolamento. A criação não é exatamente um evento singular, uma singularidade, mas sim um processo de descoberta. Cada substantivo, verbo ou adjetivo é atravessado pelo que veio antes, pelo que ouvimos, pelo que lemos, sentimos, pelo que os outros já fizeram. Nada nasce no vácuo. A criação sempre é coletiva, mesmo quando pensamos estar fazendo tudo sozinhos.
É nesse encontro entre vozes, memórias, referências e fantasmas que a literatura (em especial a literatura de terror) encontra sua força. É esse encontro que eu quero preservar.
A Última Página precisa voltar a ser aquilo que sempre foi: um espaço de encontros. Quero que ela deixe de ser um esforço individual e se torne, de novo, um projeto partilhado. Isso significa abrir as portas para que outras pessoas ajudem a imaginar os próximos concursos, a ler e discutir os textos recebidos, a propor novos caminhos e até a reinventar o que entendemos como literatura, poesia, terror, horror, etc.
O que desejo é criar um conselho vivo, fluido, onde decisões possam ser tomadas em conversa, em rodízio, em experimentação. Um coletivo que se forme a partir da afinidade, do desejo de preservar uma literatura sem cercas, guiada pelo espanto, pela descoberta e pela vontade de assombrar e se assombrar junto. Talvez isso signifique reencontrar velhos companheiros, como o Gabriel, mas sobretudo significa abrir espaço para outras novas vozes que queiram se comprometer com os mesmos princípios.
Não quero manter um palco para a minha voz apenas. Quero abrir um espaço em que várias vozes ecoem, se choquem, e se misturem. Em outras palavras, o futuro da Última Página só faz sentido se for coletivo, afinal, como escreveu Paulo Freire em “Extensão ou Comunicação”: “O sujeito pensante não pode pensar sozinho; não pode pensar sem a coparticipação de outros sujeitos no ato de pensar sobre o objeto. Não há um “penso”, mas um “pensamos”. É o “pensamos” que estabelece o “penso” e não o contrário.”
Não evoco Freire à toa. Acredito que a coletividade também precisa ser material. Desde o começo, nos propusemos a pagar um valor justo pelas obras publicadas. Começamos com R$50 por conto (o que é um valor muito baixo, me sinto até mal de ter pago esse valor por obras tão legais quanto Marfim ou Hoje Tem Espetáculo), depois R$100, e só depois chegamos a R$200 para textos de até 2000 palavras. Já premiamos contos maiores, com mais palavras, pelo mesmo valor, e no nosso primeiro e ainda único concurso de poesia, pagamos R$50. Sei que esses valores ainda são pequenos demais diante do que seria justo, mas sempre foi o que consegui dar conta dentro da minha condição.
Manter isso sozinho é inviável. R$200 por conto pode parecer pouco para o mercado editorial, mas é muito para uma única pessoa sustentar de forma contínua. Por isso, quando falo em coletivo, falo também em compartilhar essa responsabilidade financeira. Quem se aproximar desse conselho precisa querer entrar não só com tempo, leitura e afeto, mas também ajudando a garantir que autores e autoras recebam algo pelo seu trabalho. Os custos fixos do blog, do domínio e da manutenção técnica eu sigo cobrindo, mas o prêmio em dinheiro (que é o coração dos concursos, o reconhecimento concreto da criação) precisa ser sustentado por mais de uma mão.
Se você chegou até aqui e sentiu que essas palavras ecoaram algo em você, então este é um convite. Quero conhecer quem se reconhece nessa mesma recusa à propriedade intelectual e nesse mesmo desejo de uma literatura e de um criar coletivo. Quero ouvir novas vozes, conhecer novas histórias, dividir as responsabilidades e sustentar esse espaço como comunidade. Comente aqui neste post, ou me escreva por e-mail. Me conte quem você é, de onde vem, o que te move, o que você gostaria de ver na Última Página e como imagina que a gente poderia fazer isso juntos.
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